Tag: idadismo

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“Sou Mais Sessenta” destaca o orgulho de quem já viveu muitas histórias

USP participa de campanha que busca combater o idadismo e resgatar o valor da idade e da experiência

Se o tempo nunca valeu tanto, imagine quanto vale alguém que já viveu muito tempo? A frase é uma reflexão que o movimento “Sou Mais Sessenta” traz em uma campanha para resgatar o valor da idade e, ao mesmo tempo, combater o idadismo. O preconceito pela idade é quando criamos estereótipos, em geral negativos, ou discriminamos uma pessoa ou grupo de pessoas pela sua idade ou pelo fato delas parecerem envelhecidas.

Muitas dessas ideias preconcebidas podem ser inconscientes, mas estão presentes quando imaginamos que envelhecer significa ser algo ruim, ou associamos a uma pessoa improdutiva e dependente, ou que sempre desenvolverá demência. Considerar que todo idoso é igual ou infantilizá-lo por considerá-lo frágil e débil. A concretização desses estereótipos surge com o preconceito ao excluir candidatos a vagas de empregos por causa da idade, por exemplo.

“Precisamos desconstruir esses mitos e educar para o processo de envelhecimento. Não podemos restringir uma pessoa por causa de uma característica biológica e um número. Quando se carrega dentro de si esses estereótipos negativos, há uma estigmatização de um grupo e isso se reflete no fato de que muitas pessoas não querem envelhecer”, diz o médico Egídio Dórea, coordenador do programa USP 60+.

O programa é um dos parceiros da campanha “Sou Mais Sessenta” junto com a Ativen, A² Local Brazil e ArtPlan, e com o apoio do Centro Internacional de Longevidade ILC Brasil. A partir de cartazes e um filme, a campanha mostra imagens positivas de envelhecer e enaltece as experiências de vida, como de um médico veterinário que já atendeu 15 mil animais e de um caminhoneiro que percorreu um milhão de quilômetros.

“Sou Mais Sessenta” também destaca que a idade não é limitante para nada. A Sônia Magalhães Soares, por exemplo, decidiu ser atriz após os 60 anos. A Neuza Guerreiro de Carvalho tem 90 anos e há 12 anos trabalha como digital influencer.

Confira algumas peças da campanha “Sou Mais Sessenta”

Eu sou você amanhã

Daqui a 40 anos, em 2060, um em cada quatro brasileiros terá mais de 65 anos. Hoje, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de pessoas com mais de 60 anos já ultrapassou a marca de 30 milhões.

Para o coordenador do USP 60+, educar e conscientizar sobre o envelhecimento é evitar o preconceito contra o nosso próprio futuro. “Envelhecer foi a maior conquista do século 20, ganhamos de 20 a 30 anos a mais de expectativa de vida. Foram anos de qualidade de vida adicionados, oportunidades, aprender coisas novas, adquirir habilidades e competências.”

Egídio Lima Dorea

O professor que processou Oxford por preconceito de idade – e ganhou

Um especialista em Física que foi obrigado a reformar-se há três anos explica o porquê de, com 72 anos, ter lutado para recuperar o seu emprego. Por Joe Shute, Grande Repórter do The Telegraph.

 

As pessoas de mais idade querem trabalhar porque isso dá plenitude, significado e propósito às suas vidas” Foi assim que o professor Paul Ewart descreveu o seu primeiro dia de regresso ao trabalho no departamento de Física da Universidade de Oxford: marcou presença num briefing de segurança sobre a Covid-19, numa sala de conferências no famoso Laboratório Clarendon, em Parks Road, e recebeu acolhedoras saudações, se bem que com a devida distância social, por parte dos colegas.

Foi uma espécie de segundo advento para o professor de 72 anos, oriundo de Belfast, que começou a trabalhar naquele local há mais de quatro décadas. Nos últimos três anos, o ex-diretor do departamento de Física Laser e Atómica esteve em situação de ausência forçada, na sequência de uma decisão agora emblematicamente considerada ilegal por um tribunal e que o tinha forçado a aposentar-se.

‘As pessoas de mais idade querem trabalhar porque isso dá plenitude, significado e propósito às suas vidas” Foi assim que o professor Paul Ewart descreveu o seu primeiro dia de regresso ao trabalho no departamento de Física da Universidade de Oxford: marcou presença num briefing de segurança sobre a Covid-19, numa sala de conferências no famoso Laboratório Clarendon, em Parks Road, e recebeu acolhedoras saudações, se bem que com a devida distância social, por parte dos colegas.

Foi uma espécie de segundo advento para o professor de 72 anos, oriundo de Belfast, que começou a trabalhar naquele local há mais de quatro décadas. Nos últimos três anos, o ex-diretor do departamento de Física Laser e Atómica esteve em situação de ausência forçada, na sequência de uma decisão agora emblematicamente considerada ilegal por um tribunal e que o tinha forçado a aposentar-se.

Esta semana, foi anunciado que a universidade tinha sido obrigada a pagar-lhe os rendimentos perdidos durante três anos, mais uma indemnização de 30.000 libras, além de ter de o readmitir na qualidade de investigador sénior. A chamada “decisão corretiva” tomada pelo tribunal do trabalho constitui uma vitória para o professor Ewart, que processou a universidade por discriminação em relação à idade [Ageismo] e dispensa injusta quando o seu contrato não foi renovado em 2017.

Abatido por anos de batalhas em tribunal – que lhe custaram dezenas de milhares de libras que não recuperará e que prejudicaram a sua saúde física –, ele sabe que a luta não terminou. A universidade já interpôs recurso, cujo resultado se conhecerá na primavera. “A universidade não vai desistir. Irá continuar a recorrer, porque pode gastar mais do que qualquer pessoa”, diz Ewart.

A disputa centra-se em torno de uma política controversa chamada Idade de Reforma Justificada pelo Empregador (Employer Justified Retirement Age – EJRA). Em 2011, quando foi abolida a idade legal de reforma predefinida de 65 anos, a Universidade de Oxford introduziu a regra que obriga o corpo docente senior a aposentar-se antes de completar os 69 anos, na esperança de que isso incentivasse o recrutamento de membros mais jovens e mais diversificados para o corpo académico. As universidades de Cambridge e de St. Andrew usam uma política similar.

Tem havido “baixas” notáveis de figuras de relevo: o professor John Pitcher, um proeminente académico de Shakespeare e membro do St John’s College, Oxford, esteve envolvido numa disputa jurídica semelhante, enquanto Peter Edwards, professor de Química Inorgânica, também levou o seu caso a tribunal. Numa estimativa conservadora, diz o professor Ewart, a universidade já gastou até agora mais de um milhão de libras em custas judiciais a contestar as várias queixas.

“Estou a fazer isto porque acho que tenho o direito de o fazer”, acrescenta o professor durante o nosso encontro na sua casa, em Oxford. “Não acho que esteja certo uma instituição poderosa poder fazer uma coisa que é ilegal e ‘safar-se’. Trata-se de uma política que prejudica seriamente as pessoas”.

À luz da iminente crise que se fazia sentir no emprego, na sequência da Covid-19, o caso de Paul Ewart teve maior eco. A procura por diversidade tem de incluir uma força de trabalho mais velha, argumenta. “As pessoas mais velhas querem trabalhar porque isso dá plenitude, significado e propósito às suas vidas, e porque elas contribuem com experiência”, afirma Ewart. “Conseguir esse equilíbrio no local de trabalho também é importante”.

Quando, em 1979, Ewart chegou a Oxford, conhecida como a cidade dos pináculos sonhadores, era um jovem investigador e “teve de se beliscar” para ter a certeza que era tudo real. Afinal de contas, ele era a primeira pessoa da sua numerosa família a ir para a universidade. Os seus pais tinham deixado a escola aos 14 anos e a sua mãe trabalhava na cordoaria de Belfast. O seu pai frequentou o ensino noturno e tornou-se engenheiro e funcionário da Câmara.

Ewart obteve a licenciatura e doutoramento em Física na Queen’s University, em Belfast, onde conheceu a sua mulher, Marlene, na União Cristã. Ele diz que a sua fé e a sua crença na justiça o motivaram a seguir a carreira da docência universitária. Os dois casaram-se em 1972 e no ano seguinte mudaram-se para o Imperial College London, onde lhe foi oferecido um emprego. Têm dois filhos adultos e cinco netos. O professor Ewart diz que o apoio da família e colegas o ajudou a prosseguir esta luta. Recebeu centenas de emails de apoio provenientes de todo o mundo, incluindo da Tailândia, do Canadá e até mesmo do Iémen.

“Perdi muitas horas de sono e isso prejudicou-me”, conta. “Houve alturas em que a adrenalina afetou o meu ritmo cardíaco e o médico disse que era por causa do stress”. A sua área de especialização estende-se à Física Quântica e Clássica e ele fez algumas descobertas significativas. Inventou uma técnica com recurso a laser para medir a temperatura exata em alturas de calor extermo, que foi adotada pela indústria automóvel para melhorar a eficiência dos motores de combustão.

Antes de perder o seu emprego, Ewart liderava uma equipa que tinha inventado uma técnica usando um único laser para medir simultaneamente múltiplos gases – algo com uma importância vital para ajudar a compreender a abrangência e escala das alterações climáticas. Estavam em curso conversações com o governo chinês para desenvolver o processo, mas, quando foi obrigado a reformar-se, o projeto desmoronou-se. “Foi muito frustrante ver aquela investigação terminar”, diz. E refere também uma investigação de Peter Edwards, que está a lutar para poder prosseguir o seu trabalho de conversão de lixo plástico em hidrogénio.

A ideia, e não a idade da pessoa que está por detrás dela, deve ser o mais importante, defende. Ewart mostra-me uma investigação recente publicada na revista Science, que conclui que o trabalho de maior impacto realizado por cientistas ocorre a intervalos aleatórios nas suas carreiras, em vez de ir abrandando com o passar dos anos.

“Eu tinha novas ideias nas quais queria trabalhar, mas a universidade, basicamente, disse-me não estar interessada em novas ideias vindas de pessoas mais velhas“, afirma. “Por isso, não importa que ideia é. A discriminação pela idade é flagrante”.

Enquanto cientista, processou os números da reivindicação de Oxford de que a política que a universidade segue dá um “contributo substancial” para aumentar a diversidade. Depois de levar a cabo um estudo, pago pelo seu bolso, ele diz que os dados mostram que essa política levou apenas a um aumento de 2 a 4% nas oportunidades de emprego. “Um efeito trivial”, decretou o tribunal. Aquela pequena percentagem de pessoas jovens conseguirá encontrar outros empregos, argumenta Ewart, mas, para os académicos mais velhos obrigados a reformar-se, as oportunidades para prosseguirem o seu trabalho não serão as mesmas.

A sociedade tem estado a acolher, a um ritmo constante, uma força de trabalho mais velha. Os dados publicados pelo Instituto Nacional de Estatística do Reino Unido estimam que as pessoas com mais de 65 anos adicionarão mais de 280.000 trabalhadores à economia nos próximos 10 anos. O professor Ewart aponta o dedo à intransigência de Oxford em matéria de excecionalismo e conservadorismo inerente. Ele sublinha que a universidade foi das últimas a permitir que as mulheres tirassem a licenciatura (em 1920). E estima que haja cerca de 4.000 académicos sujeitos à regra da reforma e que, apesar de apenas uns quantos se virem obrigados a sair contra sua vontade, a universidade irá confrontar-se com novos ciclos de disputas em tribunal se persistir com esta regra.

Em comunicado ao The Telegraph, a universidade destacou uma anterior decisão judicial sobre um outro caso, “mas com o mesmo peso legal”, que decretou a favor do EJRA aplicado em Oxford. “A universidade decidiu que não aceita a decisão mais recente do tribunal e que irá recorrer. A política do EJRA continua em vigor e continuará a ser aplicada como de costume”, disse um porta-voz da universidade.

O professor Ewart cita vários colegas que saíram de Oxford em vez de se confrontarem com a situação inevitável de serem dispensados. É uma amarga ironia que, ao virar as costas à sua força de trabalho com mais idade, a universidade não esteja a cumprir os valores progressistas que diz defender, diz Ewart.

Créditos Texto: Joe Shute/The Telegraph/Atlântico Press

Créditos Foto: Heathcliff O’Malley /The Telegraph/Atlântico Press

Tradução: Carla Pedro

“Vivemos numa sociedade jovencêntrica”, diz Gisela Castro, especialista em longevidade

Gisela Castro (Foto: Divulgação)A velhice é um fenômeno predominantemente feminino. Há muito mais mulheres envelhecendo no mundo do que homens. E isso acontece por uma série de razões. Elas se cuidam mais, vão mais ao médico e, em geral, são menos atingidas pela violência – a não ser, claro, a violência doméstica. No Brasil, mais da metade da população atualmente é formada por mulheres de 35 anos ou mais. “Somos maioria numérica, mas ainda somos minoria social, isso que é doido”, começa a contar Gisela Castro, estudiosa expert no assunto da longevidade e do envelhecimento. “A mulher se torna socialmente mais velha muito cedo, bem antes do homem”, completa.

Mas se, com sorte, todos vamos ficar velhos um dia, por que se marginaliza tanto os longevos? Esse não deveria ser o objetivo final de nossa trajetória? Pois em um mundo no qual o mito da juventude eterna parece um elixir diluído na água em que bebemos, envelhecer é quase uma “falha moral”, nas palavras de Gisela. Principalmente para as mulheres. “Fala-se tanto em diversidade de gênero e étnica, mas muita gente esquece da diversidade etária. O preconceito do Idadismo é o último socialmente aceito. E são as mulheres que estão comprando essa briga”, explica a pesquisadora.

Gisela é Doutora em Comunicação e Cultura pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), tem pós-doutorado em Sociologia na Goldsmiths College, University of London, docente e pesquisadora do Mestrado e doutorado em Comunicação e Práticas de Consumo da ESPM, em São Paulo, e dá cursos sobre o tema no Centro Cultural B_arco, no bairro paulistano de Pinheiros. Em entrevista, ela explica conceitos como longevidade e jovencentrismo, e mapeia também como o mundo está sendo obrigado a enxergar quem já passou dos 50 anos de idade. Confira abaixo:

 

Marie Claire: O significado da palavra envelhecimento mudou se comparado a 50 anos atrás? O que é envelhecer no século 21?
Gisela Castro: Acabou de sair uma pequisa grande na Finlândia em que compararam centenas de idosos e juntaram dados de 30 anos atrás – não de 50, você não precisa ir tão longe para notar as diferenças. Comparando os dados, hoje estamos envelhecendo melhor (ainda que o Brasil não seja a Finlândia). Melhor no sentido de mais saudáveis, capazes de resolver problemas, mais alertas. Já por aqui, um estudo brasileiro feito pela Fundação Oswaldo Cruz também confirma isso, mas a grande diferença é que no Brasil temos um quadro muito grave e cruel de desigualdades sociais. Falar em envelhecimento no nosso país implica, necessariamente, em falar da diversidade. E falar de longevidade significa entender que mais pessoas estão vivendo muito.

MC: Você pode explicar um pouco melhor esse raio-X do envelhecimento especificamente no Brasil?
GC: A gente tem no país idosos com excelente potencial financeiro e acesso à saúde, educação, etc. Para muitos das classes favorecidas é uma geração que está chegando à idade avançada com preparo, inclusive financeiro. Mas, também tem uma série de pessoas nessa faixa etária muito desassistida, que não tem acesso a saneamento básico, pessoas que possuem problemas seríssimos de saúde, que nunca conseguiram tratar dos dentes, por exemplo. As desigualdades são gritantes no Brasil e a gente não pode silenciar a respeito delas. De qualquer maneira, temos visto, ainda que de forma pequena, a importância das pessoas mais velhas nos meios de comunicação. Até pouco tempo atrás era como se essas pessoas não existissem. Vivemos numa sociedade muito centrada no jovem, muito jovencêntrica.

MC: Que conceito é esse, o jovencentrismo?
GC: É um imperativo social que faz com que você precise se manter jovem, aparentar assim em qualquer idade. De modo que o “velho certo”, o “velho correto”, é o que se apresenta assim. Então, a gente vê nas reportagens os velhos superlativos, aqueles que pulam de paraquedas aos 90 anos, fazem tatuagem aos 80, sabe? Claro que isso existe, mas não é uma receita de bolo e nem sempre foi assim. O historiador Nicolau Sevcenko nos mostra que lá no século XIX o chique era parecer uma senhora, um senhor. Os homens usavam tintura na têmporas para parecerem grisalhos, mais respeitáveis. Já as mocinhas que se casavam vestiam-se de uma forma senhoril, porque isso significava mais respeito e dignidade. Isso era antes dessa ênfase no jovencentrismo, que tem muito a ver com a pressão e a presença da indústria anti-envelhecimento. Ela é poderosíssima e multimilionária.

MC: Como a ideia da “juventude eterna” afeta, em especial, as mulheres?
GC: Gasta-se rios de dinheiro em propaganda para convencer a mulher de que é dever moral eliminar qualquer sinal de envelhecimento, sobretudo do seu rosto. Há toda uma série de procedimentos (mais ou menos invasivos), produtos começam a ser comercializados dentro desse ideário da aparência jovem e de que mostrar-se envelhecendo é uma falha quase que de caráter, uma falha moral. E isso é muito grave. É claro que há movimentos contra essa onda, mas ainda são pontuais e minoritários.

MC: Entrando nesse recorte de gênero, como está sendo envelhecer para a mulher agora? Isso nos alcança de que forma?
GC: Envelhecimento é um processo que, de fato, é atravessado por muitos fatores e o gênero é um deles. O envelhecimento da mulher difere daquele sentido pelo homem por uma série de fatores. Quando estou falando de envelhecimento, não falo do biológico ou cronológico. Mas, sim, de um processo social e cultural. Hoje se percebe que há uma mudança em função do tamanho desse segmento que está chegando à idade avançada e é um mercado consumidor nada desprezível. O mercado começa a puxar esse olhar de forma menos invisibilizadora do que acontecia antes. Mas a publicidade ainda é ocupada, majoritariamente, por pessoas jovens.

MC: As mulheres acima dos 50 anos são as que estão mudando o conceito de envelhecer. Eram as mesmas inseridas no movimento do feminismo dos anos 60 e 70, e que agora estão, de novo, à frente de seu tempo enfrentando o Etarismo. É isso mesmo?
GC: Sim e é muito importante. O que não pode acontecer é a gente sair de um modelo juvenil e cair num modelo superlativo, aquele em que o “velho certo” é o “velho juvenil”. O preconceito do Idadismo é o último socialmente aceito, porque ninguém fala sobre ele. E são as mulheres que estão puxando essa briga: eu me filio a elas, a minha pesquisa é uma militância também contra o Idadismo, ela tem essa função de trazer o preconceito para o debate social. Mas a gente só consegue combater aquilo que a gente enxerga.

MC: O Etarismo ou Idadismo explica a desvalorização das pessoas mais velhas nas políticas públicas de países como o Brasil, por exemplo, inclusive durante a pandemia de Covid-19?
GC: Essa crueldade dos discursos sociais em relação aos mais velhos lamentavelmente foi vista não só por aqui, onde temos um desgoverno particularmente troglodita em curso. Um altíssimo número de pessoas idosas foi atingido pela Covid-19 no mundo inteiro, prova de que há, sim, um descaso, sobretudo as pessoas abrigadas em instituições de longa permanência, que não foram devidamente protegidas e isoladas. Em Portugal, na Espanha, mesmo na Suécia, que é um país riquíssimo e social-democrata, o ministro da Saúde teve que ir a público pedir desculpas pelo descaso. O que aconteceu foi uma carnificina, se chama de “velhocídio”. Isso é eugenia, é nefasto. A gente esquece que cada pessoa mais velha que se perde, é um mundo de sabedoria, experiências e memórias que também acaba. Fora o fato pouco divulgado da quantidade de pessoas mais velhas provedoras de filhos e netos. Quando elas desaparecem, famílias inteiras ficam sem renda, sem amparo financeiro. Muitas avós são, na verdade, arrimos de família. Os números são expressivos, sobretudo no Brasil, que possui um mercado de trabalho instável. As gerações mais novas ou não conseguiram emprego, ou foram demitidas na pandemia. Enquanto as mais velhas tiveram acesso a outra época dos regimes de trabalho e de aposentadorias.

MC: Por que se tem tanto medo de envelhecer?
GC: A convivência entre gerações foi sendo desestimulada nos últimos tempos. Perdeu-se a riqueza que é conviver com avó, avô, tia-avó, tio-avô, aquelas mesas do almoço de domingo. Elas foram desaparecendo nesse ritmo alucinante da vida atual. E esse jovencentrismo é tão nefasto que, ao premiar apenas o jovem em qualquer tempo, de qualquer forma, dissemina também para eles que estão sempre corretos, que qualquer coisa diferente não vale. Ao mesmo tempo, ensina aos mais velhos que se quiserem continuar sendo valorizados, têm que imitar aos mais moços. Ensinar os mais velhos é “chato”, a pessoa mais velha é “lenta”, ninguém tem paciência com o tempo lento. Nem o farol de trânsito, na rua, leva tempo suficiente para uma pessoa idosa conseguir atravessar normalmente.

MC: Como é possível mudar a aversão ao envelhecimento, principalmente para as brasileiras, tão ligadas à questão da aparência? Produções culturais e de entretenimento podem ajudar nessa transformação de padrões?
GC: A verdade é que ainda se vê idosos e idosas em papéis caricatos na publicidade, na televisão. Há o uso de um humor meio grosseiro, o cruzar da tênue fronteira entre o humor e o deboche. Ter 40 anos já é ser velhíssimo na indústria publicitária. No caso da mulher, ela se torna “socialmente mais velha” muito cedo, bem antes do homem. A gente se habituou a ver, por exemplo, mulheres serem substituídas nas bancadas dos telejornais, enquanto os apresentadores são eternizados, porque homem grisalho é algo “bonitão”, charmoso. Isso tem mudado um pouco. As indústrias da moda e da cosmética começaram a prestar atenção nisso depois de tanto apanhar. Hoje você já vê modelos bem mais velhas desfilando ou estrelando campanhas.

MC: Existem países no mundo se preparando para o aumento de pessoas longevas em suas populações? Que sociedades podem servir de exemplo para essa mudança de pensamento quando todos entenderem que as pessoas tendem a chegar, cada vez mais, à velhice?
GC: Sim, existe uma iniciativa da ONU que se chama “Cidade Amiga do Idoso” na qual centros urbanos (espalhados pelo mundo inteiro) se preparam para o envelhecimento populacional. A Europa já era um continente envelhecido há muito tempo, então costuma ser mais amistosa à pessoa longeva do que a gente por aqui. Mas é preciso lembrar que o Brasil envelhece muito rapidamente e isso acarreta uma série de questões de ordem pública. Uma delas é adequar os espaços públicos para essa população que cresce. Há uma tendência importante ao urbanismo atual, que não diz respeito só a adequar a calçada para o idoso, o deficiente, chama-se acessibilidade, e acessibilidade é universal. Significa tornar nossa cidade um local onde possa ser acessível para todos, e a gente está muito longe disso no Brasil.

MC: Para encerrar nosso papo, chamou a atenção, recentemente, um comentário da atriz Sharon Stone, que falou em uma entrevista para um programa de TV não procurar mais um parceiro para namorar. Ela argumentou que os homens simplesmente não estão no mesmo nível emocional que as mulheres e que isso causa muito desgaste para ela. Há inúmeras mulheres maduras que estão sozinhas, com a vida amorosa congelada. Existe saída para essa encruzilhada de gerações e de mudança cultural?
GC: Sharon Stone pode ter desistido de achar um parceiro interessante porque, de uma maneira geral, a galera prefere as mais jovens. Se você é uma mulher, mesmo “um monumento” como é a atriz, mas passou a idade considerada atraente, fica restrita, muito restrita e isso é triste. Há uma naturalização muito grande disso, mesmo por parte das mulheres jovens. Essa não é uma briga só das maduras, é de todos nós. Durante muito tempo, o feminismo não tinha essa bandeira e a inclusão etária ainda tem uma posição bastante marginal. O que você vê agora são pessoas que sempre foram militantes na vida chegarem na sua idade avançada, sem abrir mão dessa militância, como no caso de Jane Fonda, por exemplo. E se falarmos de consumo, esta é a primeira geração na chamada “terceira idade” que foi socializada consumindo produtos desde sua tenra idade. São consumidoras. E aí exigem, trazendo explicitamente suas demandas e fazendo com que o mercado abra o olho e comece a enxergar suas necessidades. Acredite ou não, as pesquisas de mercado paravam aos 35, no máximo aos 40 anos de idade. Agora não mais: é ridículo fazer isso.

Pandemia de coronavírus evidencia Ageismo no Brasil, diz antropóloga

A pandemia de coronavírus que se alastrou pelo mundo e chegou ao Brasil evidenciou a ‘velhofobia’ de parte da população, para a qual os idosos são considerados um peso para a sociedade.

A opinião é da antropóloga e escritora Mirian Goldenberg, professora titular do Departamento de Antropologia Cultural do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Em entrevista por telefone à BBC News Brasil, Goldenberg, que pesquisa envelhecimento há 20 anos, diz que “estamos assistindo horrorizados a discursos sórdidos, recheados de estigmas, preconceitos e violências contra os mais velhos”.

Segundo ela, esse tipo de discurso, que chama de “velhofóbico”, sempre existiu, mas ficou mais evidente com o coronavírus. Os idosos são considerados grupo de risco para a doença.

“Esse tipo de discurso já existia antes da pandemia: os velhos são considerados inúteis, desnecessários e invisíveis. Mas agora está mais evidente. Políticos, empresários e até o presidente da República já vieram a público dar declarações ‘velhofóbicas'”, diz Goldenberg (em março, o presidente Jair Bolsonaro chegou a defender apenas o isolamento da população idosa, e em vez de da população em geral)

“Homens e mulheres mais velhos, que já experimentam uma espécie de ‘morte simbólica’, ficam desesperados ao constatar que são considerados um peso para a sociedade”, acrescenta Goldenberg, que diz ainda que “muitos dos que disseminam o discurso de ódio e de extermínio dos mais velhos já passaram dos 60 anos”.

Confira a seguir os principais trechos da entrevista.

BBC News Brasil – A sra diz que a pandemia tornou evidente a ‘velhofobia’. Mas o que é exatamente essa velhofobia?

Mirian Goldenberg – Me refiro ao termo ‘velhofobia’ para descrever não só os preconceitos, estigmas e tabus associados ao envelhecimento, mas também o pânico de envelhecer que, no Brasil, é muito mais forte do que na Europa, por exemplo. Outros especialistas usam denominações diferentes, como ageísmo, idadismo ou gerontofobia. Mas eu prefiro velhofobia porque todo mundo entende do que estou falando.

O que temos visto nesta pandemia são discursos que chamo de velhofóbicos se generalizando. Políticos, empresários e até o presidente da República já disseram que ‘não se pode deixar a economia parar’ e que os jovens ‘têm que voltar a trabalhar’. Ou até que os velhos vão morrer ‘mais cedo ou mais tarde’.

Estamos assistindo horrorizados a discursos sórdidos, recheados de estigmas, preconceitos e violências contra os mais velhos.

BBC News Brasil – Mas esse preconceito contra os idosos já não existia?

Goldenberg– Sim. Mas não de forma tão explícita. Os velhos sempre foram vistos como um peso para a sociedade, ou seja, já experimentam o que chamo de ‘morte simbólica’. O valor que se dá a essas pessoas mais velhas é quase nulo, socialmente e dentro de casa.

Ocorre que, agora, isso ficou mais evidente.

Temos visto isso não só nos discursos de que os velhos devem morrer para a epidemia acabar logo mas também em memes zombando deles, dizendo que eles são teimosos e desobedientes, como se fossem crianças malcomportadas.

BBC News Brasil – Mas por que a ‘velhofobia’ ficou mais evidente, na sua opinião?

Goldenberg –O preconceito sempre existiu, mas numa situação em que os velhos não estavam tão vulneráveis.

Agora, estão fragilizados de duas formas: de um lado, são a população de maior risco. De outro, perderam seu bem mais precioso: a liberdade de ir e vir.

Antes, podiam ir ao supermercado, à farmácia, dar a volta na praça, frequentar o teatro, o cinema, encontrar com os amigos.

Mas já não podem mais. Estão em uma prisão que não tem data nem hora para terminar.

Há cinco anos, venho acompanhando o dia a dia de homens e mulheres de 90 a 103 anos. Todos lúcidos, ativos e saudáveis. Eles estão desesperados. Têm dificuldade para compreender uma realidade que não fazia parte da vida deles antes do isolamento.

Além de tudo isso, precisam enfrentar todo esse discurso de ódio. Imagine ligar a TV e escutar pessoas que pregam a sua morte 24 horas por dia.

Goldenberg e seu amigo, Guedes, de 97 anos

BBC News Brasil – Qual tipo de abordagem a sra acha que deveria ser a mais correta?

Goldenberg – Tenho tentado fazer as pessoas escutarem os mais velhos. Esse é meu propósito desde que começou essa pandemia. Não dá para ficar dando ordem. Precisamos compreender a a realidade deles e juntos com eles encontrar alternativas para amenizar essa situação, de forma que eles não vivam como se estivessem numa prisão.

Isso seria uma morte antecipada para eles.

Ligue para eles, faça atividades junto com eles. Faça com que eles se sintam vivos, úteis, amados, cuidados.

E que eles também possam cuidar da gente.

Quando meu melhor amigo, Guedes (de 97 anos), me liga desesperado, alarmado sobre a quantidade de caixões na Itália, eu lhe digo: ‘Você não pode fazer nada por quem está lá, mas cuide de mim aqui’. E ele se sente importante. Não estou dando ordem. É ele quem está tomando uma decisão de cuidar de si mesmo, de mim e de outras pessoas.

Meu maior temor é como os idosos vão sobreviver emocionalmente durante esta pandemia. Essa é a maior angústia deles.

Por fim, temos que entender que os velhos não são um fardo para a sociedade. Conheço inúmeros casos de velhos cujo filho é alcoólatra, a filha está com câncer, o neto tem depressão. E são eles que cuidam deles, não só financeiramente.

BBC News Brasil – A sra diz que “muitos dos que disseminam o discurso de ódio e de extermínio dos mais velhos já passaram dos 60 anos”. Por quê?

Goldenberg – É urgente que todos aprendam uma lição importante: a única categoria social que une todo mundo é ser velho. A criança e o jovem de hoje serão os velhos de amanhã. Os velhofóbicos estão construindo o seu próprio destino como velhos, e também o destino dos seus filhos e netos: os velhos de amanhã.

Ou seja, muitas dessas pessoas não se enxergam como velhos. A velhice é associada à imobilidade, à doença, à incapacidade, à inutilidade. Por isso ninguém se reconhece como velho, nem os próprios velhos.

BBC News Brasil – A sra acha que esse sentimento é potencializado no Brasil?

Goldenberg – Sem dúvida. Aqui no Brasil sempre fomos a cultura da juventude, do corpo jovem. O corpo considerado belo e saudável sempre está associado à juventude.

O brasileiro fica “velho” mais cedo. Na Alemanha, uma pessoa de 60 anos vai de bicicleta para o trabalho e fala de projetos. A idade não é importante.

Aqui, aos 30 anos, já estamos falando de velhice. Todos têm pânico de envelhecer. Não é à toa que o Brasil está entre os países com maior número de cirurgias plásticas.

Esse pânico não é só físico, mas também simbólico. Perdemos valor para a sociedade ao envelhecermos. Tanto valor que nos tornamos descartáveis. Que podemos morrer para “salvar a economia”.

É disso quando falo que a pandemia deixou a velhofobia mais evidente.

BBC News Brasil – Essa velhofobia de que a sra fala põe em xeque a suposta crença de que o brasileiro seria mais benevolente com o idoso? Se na Europa, ele é colocado em um asilo, no Brasil, ele é trazido para dentro de casa…

Goldenberg –Deixe-me corrigi-lo. São os filhos – e às vezes os netos – que vão para a casa do idoso no Brasil. Não o contrário. Quantos idosos se tornaram chefes de família no Brasil com sua aposentadoria? Eles bancam os filhos e netos. Vemos isso em todas as classes sociais, inclusive nas comunidades carentes.

O maior índice de violência contra o idoso está dentro de casa. Mais da metade das agressões (agressão física, verbal, psicológica e financeira) é feita por filhos e netos.

Portanto, desconheço essa suposta benevolência. A violência contra o idoso está fora e dentro de casa. E está dentro de casa porque a casa é dele, na maioria das vezes.

Imagine o que deve estar acontecendo dentro de muitas casas nessa pandemia. Certamente, veremos um aumento da violência contra o idoso.

BBC News Brasil – Qual a lição a sra aprendeu ao longo destes anos pesquisando idosos?

Goldenberg –O amor que eles têm pela vida. Tudo o que eles fizeram e ainda fazem para se manter saudáveis e lúcidos faz com que a vida deles tenha mais valor.

Não importa se vai ser mais um dois ou três anos. Mas eles têm uma gana de viver pela vida que ninguém tem.

E uma imensa gratidão por estarem vivos. É triste, portanto, ver como eles vêm sendo tratados nesta pandemia.

João Campos: “O único preconceito que eu vi na campanha foi contra a minha juventude”

No dia em que completou 27 anos de idade, na última quinta-feira, João Campos (PSB) foi recebido por cerca de cem funcionários de uma empresa que presta serviço de assistência de saúde domiciliar no Recife, a Interne. Na ocasião, concedeu uma breve entrevista ao EL PAÍS, em que se defendeu da acusação de sexismo ao atacar sua adversária e prima de segundo grau, Marília Arraes (PT), uma inédita disputa dos herdeiros de Miguel Arraes, bastião da política pernambucana, e fundador do PSB. Ainda disse sofrer preconceito por ser jovem e afirma que não será influenciado por sua mãe, Renata Campos, caso seja eleito prefeito da capital pernambucana no próximo domingo.

No último fim de semana, centenas de panfletos apócrifos foram entregues em portas de templos religiosos no qual há uma foto da petista e os dizeres: “Cristão de verdade não vota em Marília Arraes”. Afirma que ela defende temas caros aos religiosos, como apoio ao aborto e legalização das drogas. A reportagem tentou contato com a candidata Marília Arraes, mas ela não atendeu aos pedidos de entrevista feitos há dez dias por intermédio de sua assessoria.

Pergunta. Por qual razão você mudou o tom nesse segundo turno e passou a atacar sua adversária?

Resposta. A campanha é de dois turnos. Fui agredido desde o início por todos os meus opositores, inclusive pela atual adversária no segundo turno, de maneira muito forte. Fui agredido de ordem pessoal. Minha família foi agredida. Isso ficou muito nítido. Eu ganhei mais de 60 decisões judiciais a meu favor porque fui vítima de fake news, injúria, de ódio. Se você somar todas as candidaturas de oposição, não chegam a esse número na Justiça. No segundo turno, é natural que se façam comparações entre as candidaturas. Jamais agredi ninguém de ordem pessoal, embora eu tenha sido agredido dessa forma. O único preconceito que eu vi na campanha foi contra a minha juventude. Jamais vou permitir uma agressão de ordem pessoal. Agora, o debate no campo das ideias, das propostas, é natural de ser feito.

P. Mas houve um ataque à sua adversária.

R. Eu questionei e continuo a questionar acusações do Ministério Público de improbidade administrativa, da ocorrência de funcionários fantasmas [no gabinete de Marília], da pouca produtividade do mandato dela. Isso é uma crítica administrativa e sempre vai ser feita porque na política é natural existir o contraditório. [ Esse processo foi arquivado pela Promotoria].

P. Houve a distribuição de panfletos que questionam a fé religiosa dela. E também há críticos que dizem que você faz uma campanha sexista, que tem preconceito contra uma mulher.

R. Minha campanha nunca autorizou e eu jamais vou autorizar nenhuma agressão de ordem pessoal ou nenhum material apócrifo. Minha candidatura foi à Justiça pedir investigação desse material. Se alguém colocou um material apócrifo tem de ser investigado, porque isso é crime. Desafio as pessoas a encontrarem qualquer agressão minha de ordem machista ou preconceituosa contra qualquer pessoa. Agora, se você for ver da candidatura adversária, tem afirmações preconceituosas contra mim. Tem afirmações machistas contra pessoas da minha família, contra a nossa candidata à vice-prefeita [Isabella de Roldão]. Eu não posso ser responsabilizado por algo que não fiz.

P. Como ficam os elos familiares com essa disputa? Eles foram rompidos agora ou já não existem há tempos?

R. Não existe disputa familiar. Existe uma disputa política entre duas candidaturas de partidos diferentes, de frentes políticas diferentes, com programas diferentes pra cidade, com representações de caminhos completamente diferentes do que é o Recife, do que foi o PT, do que é a administração do PSB. Não existe nenhum componente de disputa familiar.

P. O que você mais questiona das propostas de sua adversária?

R. Eu discuto propostas. Uma delas eu levei em um debate. Ela diz que irá acabar com todas as palafitas da cidade. Eu perguntei como ela ia fazer e qual era o custo. Ela disse que era zerar e fiz a conta. São 26.000 palafitas, segundo a própria candidata. Pela faixa 1 do programa Minha Casa Minha Vida, dá 83.000 reais por casa, ao custo total de aproximadamente 2,1 bilhões de reais para zerar as palafitas. Em quatro anos, a prefeitura tem 2 bilhões de reais para investir em todas as áreas: segurança, educação, saúde, iluminação. Em tudo! Eu disse que essa proposta dela não era possível. No debate seguinte, eu repeti a pergunta. Perguntei, como ela iria zerar. Aí, ela disse que nunca havia feito essa promessa e que eu estava mentindo. Eu estou fazendo a campanha no campo das ideias. Eu fui desrespeitado na campanha inteira por ser jovem.

P. Essa questão da experiência é recorrente. Há quem diga que não é possível se tornar diretor de uma empresa sem passar por outros cargos antes, sem ter uma bagagem prévia.

R. O Facebook, o Instagram e o WhatsApp foram criados por jovens com menos de 27 anos de idade. Não estou dizendo que sou melhor do que ninguém, agora, não posso ser visto com preconceito pelo fato de ser jovem. Ser jovem não me incapacita, o que incapacita é você ser arrogante, não ter humildade.

P. Essa campanha no Recife sela um rompimento nacional de PT e PSB?

R. O PSB é um partido que está fazendo uma autorreforma, que discute com a sociedade o que deve ser construído pela frente. O PSB junto com o PDT, a Rede e o PV tem construído uma frente ampla nacional para discutir os rumos do Brasil. O PSB nunca se negou ao diálogo e sempre colocou a eleição do Recife como sua eleição prioritária entre as capitais brasileiras. O PSB fez o dever de casa. Passada as eleições, os partidos vão discutir isso novamente. O PSB terá um projeto importante para o Brasil.

P. Pelo que se está passando hoje, haverá muita ferida para lamber, não?

R. Os partidos vão discutir isso nacionalmente. Aqui, farei a minha gestão, seguindo nosso rumo. Tenho compromisso de, no meu governo, não aceitar indicação política do PT. Vai ser um governo construído de maneira técnica, eficiente que tenha condição de entregar resultados.

P. Nos bastidores, há quem diga que quem vai mandar na prefeitura caso você se eleja serão o atual prefeito, Geraldo Júlio, e sua mãe, Renata Campos. Uma das pessoas que disse isso foi seu tio Antônio Campos. Você terá independência para administrar a cidade?

R. Não vou responder sobre isso, mas eu jamais fiz qualquer agressão machista contra ninguém. Mas minha família tem sido vítima disso. Inclusive a minha mãe, que é alvo de afirmações machistas. Eu respeito as pessoas e espero que as pessoas possam também respeitar.

 

P. Qual é a participação de sua mãe na sua campanha?

R. Ela não tem participação na minha campanha. Ela é uma referência, junto com o meu pai, que eu tenho em minha vida. Acho que a relação entre mãe e filho deve ser sempre respeitada. É algo fundamental na vida, respeitar a família das pessoas. Quem conduz a minha campanha, sou eu. Quem vai montar o meu Governo, sou eu. Assim como eu montei o meu mandato. Quando eu fui escolher meu gabinete, eu fiz uma seleção pública. Eu fiz uma inovação que nenhum deputado federal no Nordeste tinha feito. Eu fiz porque tenho o compromisso de inovar e de fazer do meu jeito. Vou fazer uma gestão que será referência na inovação.